Blog

sexta-feira, 16 de março de 2012

sobre o perecível

foto // anna f. horta


















O nunca é tão eterno quanto o sempre; uma eternidade aparentemente inalcansável por nós, que somos naturalmente volúveis. E nunca saberemos se um dia ela será alcançada. Um dia morremos e as coisas acabam. (talvez não acabem)
Se fôssemos imortais talvez conseguíssemos "nunca" fazer algo, ou conseguiríamos amar alguém "pra sempre". (talvez sejamos imortais) 
Acontece que não nos foi dada a eternidade, pelo menos não que eu saiba. Pelo menos não aqui, nisso que chamamos de existência terrena. E também não sabemos o que acontece realmente depois que morremos, mas você acredita no que quiser. Não sabemos se deixamos de existir. Não sabemos nada sobre a eternidade das coisas. Deduzimos apenas.
E, embora algumas pessoas acreditem nisso, não vivemos nada dessa eternidade também. E somos lamentavelmente românticos o suficiente para acreditar que amamos e somos amados para sempre. Nem sabemos o que é "sempre". Você sabe?
Tudo acaba. Se transforma, na verdade, mas antes acaba. Se você faz um suco de laranja, a laranja acaba, mas você agora tem suco.
Nós não alcançamos o sempre nem o nunca; não somos capazes; acabamos antes. Apodrecemos, nos tornamos outra coisa, viramos suco de laranja. Então pare de exigir eternidade das pessoas; e pare de prometer também.

  

terça-feira, 6 de março de 2012

sobrevida

foto // anna f. horta
saudade dói. e é exatamente essa dor que nos move. é como uma dor de cabeça, que o corpo motiva pra dizer que tem algo errado. como uma cãibra, que vem como um aviso, como um pedido para que o corpo reaja, senão aquele pedaço vai apodrecer até desaparecer.
penso inclusive que em tudo, é a dor ou a possibilidade de que nos move. nós temos medo do que vai doer, tememos o risco, o novo, tememos não saber lidar com o novo, porque não vamos mesmo saber, a princípio. tudo porque pode dar errado. e se der, vai doer.


que expectativa frustrada não dói?  no entanto, eis o que me move.
mas a saudade, essa dói de um jeito que nos obriga a agir. dói para que a gente levante e escreva ou ligue para aquela pessoa, dói até a gente dizer: "eu estou sentindo muito a sua falta hoje porque vi uma foto". as pessoas fazem uma falta eterna, mas não é todo dia que sentimos. e às vezes dói para que a gente nunca esqueça de dizer a ela que ela nunca vai ser esquecida. dói pra que a gente comece a pensar em tudo que já viveu e se pergunte: por que eu estou sentindo essa dor?
e então a gente age, assim como quando sente fome. a gente se alimenta, diz que ama. mas às vezes não dá. então a gente chora. a gente escreve, mesmo assim. e a gente passa pela dor. ultrapassa. e depois aquilo fica adormecido mais alguns meses, até doer de novo, e a gente agir e reamar e reviver.


sexta-feira, 2 de março de 2012

eternidade

publicado no negodito.com

foto // anna f. horta













Preciso desafiar o egoísmo das pessoas -e o meu- de arrancar o belo pelo talo e depois se desfazer. precisamos entender que a terra é de onde as coisas vêm e pra onde vão, todas. todos nós.
preciso comprar adubo ou fazer alguma coisa que sirva para nutrir essa coisa que quer nascer e quero plantar. e depois tirar uma muda e dar pra você, sem precipitação. para você que sabe plantar. ou então dar pra você, já plantada, em um vaso pequeno para, quem sabe, você replantar, quando crescer, em um espaço maior, merecido. mas nunca arrancar pra você guardar entre duas páginas de um caderno, até que seque. nunca! é tão poética a natureza morta, a tristeza e a secura.
aliás precisamos parar com essa mania de arrancar flores assim indiscriminadamente. quando eu era pequena colhia flores no caminho pra presentear a professora, mas a flor chegava tão murcha e já sem beleza que, às vezes, até desistia do mimo. porque a tal beleza morre, as pétalas murcham, enrugam. mas a beleza que existe no que é vivo, quando é dado como presente – esta ninguém mata, essa vive pra sempre, dá frutos, filhos, netos. e jardins.
dê flores vivas com a possibilidade de viver mais, se quiser presentear alguém. dê vida, dê a possibilidade de continuação e esperança. ninguém deveria precisar morrer só para que a gente pudesse dar um pedacinho de beleza a quem ama. nem uma margaridinha.
e eu? bem, eu preciso cultivar, pra depois colher e te dar, pra depois tirar mudas e replantar. sem precipitações, bem eternamente mesmo. porque é.

  

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ang...

foto // anna f. horta



















tudo nela era grave, desde um pouco antes de acordar, quando sentiu seu olho arder inesperadamente e sem motivo. um sentimento grave, pesadíssimo. e era de uma gravidade sem explicação, pesava a ponto de mal conseguir sair do círculo onde parou. acendeu um cigarro. tragou a fumaça, também grave, depois desistiu e jogou fora. ficou ali, parada, saboreando o gosto da fumaça. sentia um peso nos braços, uma dificuldade. sentia medo e fazia força. temia o próprio medo, mas não o abandonava, por medo de ser perseguida. arrastava, quando não dava. às vezes era tão leve, que deixava mesmo de existir. mas quase todos os dias sentia um pouco de falta de ar para carregá-lo em algum breve momento. precisava levá-lo como se nem pesasse. como se não existisse. era preto e branco. precisa ir, mas não queria mais chegar.
de onde surgiu e quando? e como? a gravidade disso tudo puxava pra baixo, fazia ela cair às vezes. mas também fazia com que ela permanecesse com os pés bem firmes ao chão.

  

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

sólida

foto // anna f. horta

e de novo você esbarra sem querer em mim. dessa vez entorno com copo e tudo. e penetro com caco de vidro e saio fazendo mal para todo tipo de vida que cruza o meu caminho. mas eu não quero. eu não queria cair, mas não devo então me arriscar tanto, não devo ficar na beirada. não devo ficar tão exposta, pois um movimento desajeitado seu pode fazer com que eu caia. quedas são difíceis e tenho entornado acidentalmente todos os dias. a temperatura diminuiu, talvez dessa vez a existência se torne mais pesada, sólida. e eu não evaporei dessa vez. talvez demore. mas o ciclo ainda não recomeçou.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

cíclica

Para ler em voz alta ouvindo Pra passear - Letuce

foto // anna f. horta
às vezes você esbarra em mim sem querer e eu respingo no asfalto escaldante de uma cidade empoeirada de quarenta graus celsius. dramática, parte de mim evapora quente. a parte que ficou no copo você bebe, e a outra parte que caiu continua líquida, escapando por debaixo da porta, encontrando uma terra seca, sedenta de mim. então penetro. e depois floresço algo. sem esquecer a outra parte, que evaporou sem deixar, porém, de ser eu. ela flutua, invisível, muda. esbarra em todas as partículas de todas as pessoas e coisas da avenida, mas ninguém sabe, nem sente. de tanto esbarrar, essa parte da minha existência começa a pesar e então eu chovo. desajeitadamente como um primeiro voo de um pássaro, eu me precipito e caio. vou de encontro desesperado e esperançado com a minha outra metade que agora fez brotar e alimenta.
antes mesmo de encontrá-la, me impedem -quem? volto a ser uma possibilidade de chuva. sob uma tensão absurda de precisar me encontrar, esfrio tanto, que meu coração quase para. dessa vez sublimo e vou com tanta força que destruo o que a outra parte ajudou a nascer. depois me liquefaço e recomeço tudo de novo.
... enquanto isso você transpira. e lá estou eu, salgando seu lábio.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

seis minutos

Para ler ouvindo 6 minutos - Otto

Existe uma voz que chora forte toda vez que canta, mas existe uma música que mexe mais comigo. Não porque eu me identifique ou sinta como ela é cantada, não porque eu tenha vivido algo parecido, porque eu não vivi, não me identifico. Acontece que sei, por pura dedução quase óbvia e, também, por alguma  sensibilidade, qual o contexto em que ela foi escrita. Toda vez que ela é cantada, toda vez que escuto a mesma história, com tantos berros e uma guitarra que chora desesperada a música inteira, eu choro com ela. Eu sinto como se fosse eu... tendo vivido tudo. Dói; me arrepio toda e morro um pouquinho a cada vez.
Me transfiro, imagino como seria ter uma filha e, em algum momento, ter ouvido meu amor falar sobre "uma casa pequena, com uma varanda", chamando a Maria pra jantar, num pernoite em um quarto de hotel. Penso como seria ter vivido isso, com toda a intensidade que tenho certeza que houve, e hoje, alguns anos depois de nascida Maria, simplesmente não estarmos mais juntos, por algum motivo que talvez não fosse claro nem mesmo pra nós. Tantos planos, momentos únicos vividos e por viver, uma intensidade inexplicável que parecia fazer tudo ser inevitavelmente o que chamamos de eterno, e talvez apenas alguns minutos - tempo suficiente para uma vida, para uma canção tão intensa.
... instantes acabam.
Isso é pra morrer.

foto // josé de holanda



mais queridas

"Tem horas que é caco de vidro,
meses que é feito um grito,
tem horas que eu nem duvido,
tem dias que eu acredito."
Paulo Leminski

 
Licença Creative Commons
A obra Resíduo Final de Anna Flávia Horta foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Proibição de Obras Derivadas 3.0 Brasil.
Com base na obra disponível em residuofinal.blogspot.com

.